O grupo “Interpretar e Aprender” surgiu como ideia nos corredores da Universidade de São Paulo por três estudantes de História interessados em integrar diversão e aprendizagem. Apaixonados tanto por narrativas fantásticas quanto pelo ato de ensinar, estes amigos decidiram criar um grupo cujo intuito seria trabalhar, de forma prazerosa, os conteúdos escolares - e não haveria melhor maneira de fazê-lo do que utilizando o RPG, ou Role Playing Game.

terça-feira, 8 de março de 2016

Meninas e Meninos

Como não poderia deixar de ser, decidimos por fazer um post de comemoração do dia internacional da Mulher. E desta vez vamos comentar de uma parceria muito interessante que rendeu frutos inesperados. Me explico: no começo desse ano o pessoal da célula de São Paulo do Covil do RPG se aproximou da gente para entender como estávamos trabalhando o RPG com um público um pouco mais jovem que costuma frequentar as mesas que conhecemos.

Entre o tema RPG para iniciantes e RPG educação, participamos já de dois eventos nesse ano. No último sábado tivemos a oportunidade de reunir em uma mesa jogadores variando entre onze e treze anos de idade. Ao contrário do que esperávamos, nem a diferença de idades nem a de gêneros foi um problema para meus padawans... Digo, jogadores. Tentando trabalhar os conteúdos matemáticos e históricos desenhados para esta aventura sobre as fundações da Inglaterra.

Cabeçalho, Atributos, Perícias, equipamentos e pontos de vida fora individualmente anotados. Cada jogador alterando perícias de acordo com sua vontade e, melhor ainda, ajudando-se mutuamente a montar suas fichas. Vi um sopro novo naquela mesa. Ao contrário do grupo de rpgistas padrão, Luís, Guilherme, Julia, Luana, Marcos e Felipe se ajudaram a criar um personagem inteiro. Cada um com a sua vontade e todos se ajudando. P. do que você está falando?

Existem vários sistemas para se vencer todo tipo de obstáculos, espera-se, por exemplo, que em um grupo de jogadores de RPG tenhamos, com alguma variação, um guerreiro, um ladrão, um mago (se possível no cenário). O mago pode ser um médico em um cenário medieval histórico, por exemplo. Ou o guerreiro pode ser um arqueiro. As variaçōes são muitas. Todos ali na mesa já haviam jogado RPGs virtuais (de computador ou video-game), portanto todos entendiam essas táticas e, ainda assim, uma menina decidiu criar uma mulher capaz de vestir armadura e lutar.

Apesar da ideia problemática por ser radical na relação de poder entre homens e mulheres no século XII, decidimos explorar esses pequenos anacronismos e fomentar a imaginação. Dentro do que cada um deles concebia como verossímil ou verossimilhante, todos se comportaram relativamente bem dentro dos papéis que escolheram. Houve pouca necessidade de mediação do mestre para com a mesa, a qual acompanhou com empolgação os eventos do cerco do forte Stoneheart.

Duas coisas chamaram a atenção nesta nova fase laboratório de nosso grupo dessa última experiência: o comportamento das meninas ao longo das cenas aumentou progressivamente, enquanto os meninos mantiveram certo distanciamento dos personagens. Pouco a pouco vi a narrativa da garota sobre sua cavaleira ganhar vida. Quando ela se viu cercada por inimigos, vencida, Julia prendeu a respiração antes de perguntar: como eu saio dessa?

A médica de Luana teve de lidar com problemas mais cotidianos: preconceito de gênero, chefes reclamões, e nobres estúpidos cujas palavras não podem ser contestada. Há um motivo para esses temas serem apresentador por um mestre e não por um computador, o filtro que trata cada tema e como eles são tratados é essencial. Afinal eles precisam vencer, o mundo não pode ser sempre uma derrota para essas crianças. Mesmo que seja mentira que uma mulher há mil anos conseguiu mudar alguma coisa. Olhe para a história, vejamos em Joana D'Arc um ícone feminino. A história até o século XX foi escrita por homens, sua maioria brancos. Então agora precisamos dar aos nossos jogadores-aprendizes a fixa noção de que o passado não muda, mas sua interpretação nos ensina. Esse aprendizado, eu testemunhei no último sábado quando cavaleiros, generais e conselheiros invadiram o forte Stoneheart.

Ainda que sua missão não tenha ocorrido como o esperado, aquelas crianças viram o preconceito interpretado em personagens caricatos, em um tempo onde eles sabiam que aquele preconceito era aceito: ainda assim eles disseram NÃO! Isso é poderoso. Saber se colocar em relação ao seu entorno, mais que isso, confiar que outros estarão contigo. O que os jovens padawans... jogadores me ensinaram no último sábado foi que estamos construindo uma sociedade melhor, uma história de cada vez.

Mais sobre a mulher em jogos (principalmente virtuais) no Feminist Frequency!

No sábado, dia 19, Vamos participar novamente do mesmo encontro. E você ainda pode ficar ligado na nossa página do facebook para outras diversas atividades envolvendo RPG e Educação (com e sem nosso grupo)

Próximas atividades

Quando? Sábado, 19 de março de 2016 a partir das 14 horas.
Onde? Geek House - Alameda Franca, 1055. Jardins.
Idade esperada: mesas com pré-adolecentes de 11 a 16 anos de idade. 

4 comentários:

  1. cavaleira não existe o correto é amazona.

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  2. Caro cavaleiro andante, muito obrigado por seu comentário. Realmente a língua culta não computa, e nem poderia fazê-lo se quiséssemos, a subversão de sua regra.
    Ao me utilizar de um substantivo sem feminino no português, minha intenção era sugerir a equidade essencial entre os seres humanos independente de gênero (neste caso, em específico, a questão tratada era de gênero, ainda assim quero reiterar que esta crença se estende a todos os aspectos da vida).
    Continue jogando rpg e comentando nossos posts o/

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    1. imaginei q esse foi o motivo de vc usar cavalira e não amazona e tbm para q nao confundissem com as amazonas das lendas gregas. e continuarei a ler e comenter em seus post.

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