O grupo “Interpretar e Aprender” surgiu como ideia nos corredores da Universidade de São Paulo por três estudantes de História interessados em integrar diversão e aprendizagem. Apaixonados tanto por narrativas fantásticas quanto pelo ato de ensinar, estes amigos decidiram criar um grupo cujo intuito seria trabalhar, de forma prazerosa, os conteúdos escolares - e não haveria melhor maneira de fazê-lo do que utilizando o RPG, ou Role Playing Game.

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quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Minecraft na sala de aula

A nossa querida Lica escreveu um texto sobre suas experiências com o Minecraft em sala de aula. Ela faz parte da história do I&A, já que nossa primeira experiência como grupo de educadores utilizando RPG foi um convite dela. Após ler o texto, confira os posts que já falamos sobre esse jogo/ferramenta aqui no blog!

Liliane Maria Santana*
liliane.santana@usp.br

Jogos eletrônicos em sala de aula

Quando pequena, nunca poderia acreditar que um dia os jogos eletrônicos se popularizariam com tamanha velocidade e amplitude, rompendo barreiras, inclusive as institucionais, deixando de ser marginalizado e tornando-se uma importante ferramenta de trabalho em um espaço que por tanto tempo os demonizou: a escola.
A gameficação, como vem sendo chamado o fenômeno social em que jogos eletrônicos se tornam referência para outras mídias, invadem diversos espaços sociais e aspectos importantes que os definem são incorporados dentro de outros contextos que não os de produção de games, é um processo que está ganhando atenção não só pela sua novidade, mas também pelas possibilidades de atuação que ele proporciona.

Pode ser em uma empresa ou nas escolas, como trataremos aqui, a gameficação vem mostrando o quanto os jogos eletrônicos apresentam desafios e exigem a mobilização de diversos conhecimentos para que os jogadores alcancem um objetivo e essa mobilização se torna aspecto para reflexão sobre o próprio aprendizado. Tanto professores quanto estudantes estão olhando para o processo de ensino-aprendizagem com intencionalidades distintas, mas que se complementam. Aos professores, a gameficação exige a investigação de como aprendemos, o que nos motiva e como mobilizo recursos para a resolução de uma situação-problema. Aos estudantes, a tarefa está em perceber quais conteúdos mobilizo na resolução de desafios, quais estratégias podem ser utilizadas e a reflexão sobre o próprio processo de aprender e utilizar o conhecimento.
Muitos jogos eletrônicos atualmente apresentam amplas possibilidades de interação, com ambientes de criação que exigem do jogador a tomada de decisões, a escolha por diferentes estratégias ou ainda a cooperação entre jogadores com um objetivo comum. O universo de possibilidades de jogos que podem promover situações fictícias e que trabalhem habilidades e competências importantes na formação do estudante é ampla, sendo necessária uma pesquisa sobre as intenções com o trabalho para a escolha adequada do jogo a ser utilizado.

Aqui cabe a importante atuação do professor em buscar alternativas de ferramenta a partir do trabalho que quer realizar. Neste sentido, temos uma barreira geracional a ser superada: o encontro entre professores que nasceram e se formaram como tais em uma época que o virtual não passava de ficção científica e estudantes que nasceram em ambientes virtuais, como as redes sociais e os próprios jogos eletrônicos, muito mais imersivos do que há trinta anos. Esse encontro, julgado a priori como difícil e desgastante por uma aparente resistência na utilização de jogos eletrônicos por parte dos professores e da escola, está cada dia mais possível pelos próprios relatos que surgem dia após dia sobre os ganhos que a escola, os professores e, principalmente, os estudantes têm quando os jogos entram em cena na aprendizagem.
Estudar os Ecossistemas brasileiros pode parecer uma tarefa distante da realidade do aluno já que ele não interage diretamente com muitos deles, mas é possível um estudo detalhado sobre eles que diminua essa distância entre a realidade e o conhecimento.
O jogo Minecraft apresenta uma proposta de criação ampla e variada por ser um simulador de mundos. Nele é possível, por meio de blocos virtuais, criar ambientes e diversos elementos desses ambientes, desde elementos da natureza até grandes construções civis. Essa possibilidade variada na construção de mundos foi o que definiu a escolha pelo jogo em específico.

Simulação virtual: relato de uma vivência em sala de aula


A simulação virtual permitiu a exploração do tema, aproveitamento os recursos visuais e do ambiente 3D para aproximar a simulação do real. O jogo é conhecido pelos alunos, que já dominam diversas ferramentas oferecidas para a criação. Os outros estudantes que não conheciam o sistema tiveram a oportunidade de trocarem experiências para aprenderem o funcionamento e os recursos principais do jogo.
Eles utilizaram os conhecimentos interdisciplinares sobre os Ecossistemas brasileiros para simular essas paisagens em ambiente virtual, compondo o mundo construído com elementos característicos de cada um deles, desde vegetação até relevo e aspectos climáticos.
A utilização de jogos eletrônicos em sala de aula tem como um dos objetivos proporcionar uma experiência de simulação de situações-problemas que exigiu determinados conhecimentos sobre os Ecossistemas para terem êxito em sua realização, utilizando adequadamente a ferramenta e evidenciando as características marcantes de cada Ecossistema. Foi um verdadeiro desafio aos participantes do projeto.
Os estudantes foram divididos em grupos e realizaram uma pesquisa sobre um Ecossistema escolhido e a partir de um roteiro pré-estabelecido. Após a realização da pesquisa os estudantes compartilharam as informações coletadas e selecionaram quais aspectos, de acordo com o roteiro, seriam mais importantes para a simulação no jogo e que deixariam explícitas as características marcantes de cada Ecossistema.

Depois de selecionados esses aspectos, eles foram aos computadores para a criação, que aconteceu individualmente ou em duplas de acordo com o grupo previamente estabelecido. Mesmo com o grande conhecimento e habilidade que os estudantes têm com o jogo, é importante que o professor saiba as principais ferramentas que a simulação possui e oriente os estudantes quanto aos melhores caminhos a serem seguidos para melhor realização da simulação virtual.
Após a realização da simulação foram selecionaram imagens do jogo (screenshot) que melhor demonstravam os aspectos que destacavam as características do Ecossistema e compuseram uma apresentação em Power Point que explicava sobre a localização, clima, relevo, bacias hidrográficas, fauna, flora e curiosidades.
Cada grupo apresentou seu trabalho e os demais alunos produziram um registro escrito individual que organizava as informações gerais sobre cada Ecossistema.
O projeto proporcionou maior imersão no conteúdo, aproximando os conteúdos trabalhados com a realidade dos estudantes e auxiliando a compreensão de aspectos que pareceram abstratos.

Conclusão

O exercício da criatividade foi um importante estímulo para a realização do trabalho e isso é um dos maiores atrativos do Minecraft. A escola, que por muitos anos foi considerada um veículo de reprodução de condutas e saberes (que hoje sabemos não ser exatamente dessa forma, pois os estudantes, os professores e todos os agentes envolvidos no ato de educar estão constantemente ressignificando suas representações sobre a escola e o próprio conhecimento), quando permite que a criação invada seus diversos espaços, demonstra no discurso implícito, no currículo oculto, que os estudantes são um figuras centrais no processo de aprender e são respeitados por isso. Neste sentido, a possibilidade de criação os provocou a se dedicarem à construção virtual de forma a deixarem explícitos os aspectos de cada Ecossistema estudado.  
Para que os objetivos do trabalho fossem alcançados foi necessário um intenso trabalho de cooperação, com constantes reflexões sobre respeito à autoria, à colaboração virtual e o trabalho em equipe, visto que a criação no jogo exigiu a divisão de tarefas e a colaboração mútua no ambiente virtual.    
Os ambientes virtuais podem sim aproximar pessoas e serem importantes ferramentas na partilha e construção de conhecimentos. Tudo depende da importante mediação do professor em todas as etapas do trabalho, mostrando caminhos possíveis, propondo desafios coerentes e adequados aos objetivos propostos e dando segurança aos estudantes em suas tarefas. 
Diversas tecnologias são importantes aliadas da educação hoje e a escola se constitui um ambiente privilegiado de experimentação e utilização dessas ferramentas em prol do conhecimento. Conhecer e desmistificar os jogos eletrônicos são os primeiros passos para sua utilização com êxito, além de ouvir os estudantes e saber quais são suas ideias sobre aprender com games.
Todos esses são percursos que estão renovando a educação, muito além da moda de uma nova tecnologia, constituem-se como mudanças significativas quanto ao respeito aos estudantes e percepção de demandas sociais que a escola não pode ignorar. O importante agora é permitir-se experimentar e vivenciar esse novo olhar.





* Pedagoga pela Universidade de São Paulo, mestranda em História da Educação também pela Universidade de São Paulo, professora do 5º ano do Colégio Emilie de Villeneuve.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Como prometido, o castelo de Minecraft.

Finalmente minha aluna mandou algumas imagens do castelo que ela criou no jogo Minecraft, citado nesse post mais antigo. O primeiro castelo de Portugal, de acordo com ela! 




quarta-feira, 3 de abril de 2013

Novas necessidades, projetos nem tanto - Parte II

Esse post começa aqui

Como havia dito, a FEBRACE é uma feira nacional de ciências e engenharia que ocorre anualmente na POLI-USP, com alunos de 8º, 9º anos do fundamental e do ensino médio. Contei um pouco da minha experiência com essa metodologia neste post aqui.



Na FEBRACE, claro, os trabalhos são excelentes, pois passam por um crivo bastante rígidos de avaliadores já graduados em suas áreas. Os colégios técnicos se destacam em áreas como biologia e engenharia por já contarem com especialistas e laboratórios mais avançados que os colégios comuns. A região Nordeste do Brasil se destaca pela preocupação com suas próprias comunidades e projetos que visam resolver problemas práticos de forma econômica e sustentável. 

Todo ano há trabalhos que se preocupam com a própria educação. Neste ano, os 3 primeiros lugares em ciências humanas, tanto na categoria individual, tanto em grupo, pesquisaram os métodos e ferramentas pedagógicas. Dois trabalhos sobre educação olhavam para o vídeo-game como uma forte ferramenta pedagógica. O primeiro, aqui da cidade de São Paulo, utilizava o jogo Minecraft para o ensino de Geografia. O segundo, idealizado por alunos do 9º ano, utiliza o Minecraft para um projeto mais audacioso.

Mas antes, temos que explicar o que é este jogo. O Minecraft é um jogo de péssimos gráficos que envolve, de maneira que precisa ser estudada, muitos adolescentes com acesso à internet.


No jogo, você pode criar, basicamente, qualquer coisa. Os blocos podem ser construídos e destruídos, e o único limite é sua própria imaginação. Claro que alguns jogadores acabam se especializando e criando obras-primas. Como uma pirâmide Maia:


Ou ainda King´s Landing, da obra de George R. R. Martin "As Crônicas de Gelo e Fogo"



As imagens parecem ter um bom gráfico porque estão distantes dos detalhes, os blocos são os mesmos. Eu demorei para escrever este blog pois uma aluna do 8º ano construiu um castelo medieval (estávamos vendo Baixa Idade Média) e pedi para que ela me enviasse algumas fotos, mas como todo bom aluno, esquecem que o professor existe e se interessam por suas produções!

Bom, vocês já devem estar imaginando zilhões de usos para o jogo. Até a ONU entrou na parada. Um projeto pretende utilizar o Minecraft para melhor visualizar o planejamento urbano de algumas regiões. Eu só não conseguia entender como um jogo que tinha péssimos gráficos e sem um objetivo claro conquistava tantos adolescentes. É sabido que os gamers mais novos se importam muito com os gráficos, de maneira geral. Mas, espere um pouco, construir mundos sem gráficos não é exatamente o que fazemos, tanto no RPG quanto na educação??? (Principalmente em história) Isso ficou mais claro ainda quando vi o segundo trabalho sobre o jogo.

Antes de falar sobre o projeto, ainda resta dizer que o Minecraft possui uma licença de modificação do jogo. Isso quer dizer que você, eu, ou qualquer um pode  modificar o jogo a nosso bel-prazer. Isso significa criar outros tipos de blocos e respostas para alguns estímulos (interação entre personagens, por exemplo). Bastante parecido com a prática dos RPGistas.

O Educablocks é um projeto bem diferente, pois, não só utiliza o Minecraft como uma ferramenta pontual, e sim como um método transdisciplinar para incentivar o estudo dos alunos. Os alunos modificaram o jogo para construir uma réplica da própria escola.


Os alunos que jogassem encontrar-se-iam na própria escola, interagindo com professores e atividades de maneira prazerosa. O projeto não está finalizado, mas os criadores idealizaram salas para cada professor, avaliações e até um sistema punitivo para as condutas não-desejadas: simplesmente um tempo banido do jogo. (Quem é jogador de MMO´s sabe o poder do BAN)

Enfim, opções não faltam. Este é um exemplo do grito clamando por mudanças vindo dos próprios alunos. Seja o Minecraft, seja o jogando Assassin´s Creed para os alunos entenderem melhor a sociedade veneziana do início da Idade Moderna ao lerem Otelo de Shakespeare, o vídeo-game chega para ficar na educação e não pode ser deixado de lado por professores novos ou velhos.